"Sobrelotação de quase 3.000%". Mais de 860 migrantes menores continuam em Ceuta

"Sobrelotação de quase 3.000%". Mais de 860 migrantes menores continuam em Ceuta

A Audiência Nacional espanhola pediu um relatório com vista a investigar se a crise migratória de Ceuta decorreu da ação de um “grupo criminoso”.

Carlos Santos Neves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Terão entrado em Ceuta pelo menos 80 mil migrantes; mais de 70 mil deixaram já o enclave espanhol | Jalal Morchidi - EPA

Um total de 862 menores integrados na vaga de migrantes de Marrocos que há quatro dias chegou a Ceuta encontra-se atualmente neste enclave espanhol, o que se traduz numa “taxa de sobrelotação” de quase três mil por cento face à “capacidade padrão estabelecida”. Os números foram esta segunda-feira divulgados pelo conselheiro da Presidência e Governação de Ceuta, Alberto Gaitán.

“A capacidade padrão estabelecida para nós pelo Ministério é de 29. Estamos a falar, portanto, de uma sobrelotação de quase três mil por cento, especificamente, 2.872 por cento”, assinalou Gaitán em declarações à rádio Cadena SER.

O responsável considerou a situação “sob controlo”, mas recordou um incidente semelhante ocorrido em 2021 para advertir que “ainda podem surgir mais menores, aqueles que talvez tenham sido acolhidos por famílias particulares e assim por diante”.Segundo o balanço divulgado pelo conselheiro da Presidência e Governação, terão entrado em Ceuta pelo menos 80 mil migrantes, a partir do pontão fronteiriço de Tarajal. Setenta e três mil deixaram já a Cidade Autónoma espanhola.

Ana Romeu - correspondente da RTP em Espanha

Desde a semana passada, foram atendidos no Hospital Universitário e em centros de saúde de Ceuta mais de 1.500 migrantes, dos quais 463 no domingo.

Em nota citada pela edição online do diário espanhol El Mundo, o Instituto Nacional de Gestão Sanitária salienta “o profissionalismo dos trabalhadores” das estruturas de saúde de Ceuta e “desmente categoricamente” que se verifique um quadro de “colapso”, como chegou a ser aventado por algumas forças políticas e sindicatos.

“Em nenhum momento ocorreu uma situação de colapso dos dispositivos assistenciais da Área Sanitária e as afirmações vertidas carecem de sustentação nos dados objetivos de atividade, que refletem um funcionamento ordenado e ajustado aos protocolos estabelecidos”, completa o INGESA.
“Ação concertada”?
Uma juíza da Audiência Nacional solicitou entretanto ao Comissariado Geral de Imigração e Fronteiras da Polícia Nacional um relatório sobre a “entrada irregular em massa” de migrantes em Ceuta, entre 30 e 31 de julho. O objetivo é perceber se este movimento se tratou de uma eventual “ação concertada” por parte de um “grupo criminoso”.

Na ordem judicial, noticiada pela agência Europa Press, a juíza María Tardón dá assim provimento a uma denúncia da organização Iustitia Europa, que, na quinta-feira, interpôs uma queixa contra funcionários, “membros de organizações criminosas” e autoridades espanholas e estrangeiras.A Iustitia Europa alega crimes contra a segurança do Estado e da nação, de auxílio à imigração ilegal e de tráfico humano, organização criminosa e omissão no cumprimento do dever de processar crimes no enclave espanhol com 84 mil habitantes no norte de África.

Pelo menos 72 migrantes morreram na travessia dos últimos dias, de acordo com as autoridades espanholas. Marrocos refere 11 mortes no seu flanco da fronteira.

Rabat atribui o movimento de migrantes à desinformação e aos traficantes de pessoas. Num relatório sobre a crise de Ceuta, cujo teor foi revelado pelo jornal El País, os serviços secretos espanhóis consideram que as autoridades marroquinas não autorizaram a entrada em massa de migrantes na Cidade Autónoma, mas permitiram que tal acontecesse e retiraram dividendos da situação.

c/ agências
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